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19.04.08 -13:04
Irmãos siameses da sinecura
Engraçado como as coisas acontecem. Todo o político tem sua vida devassada, sendo obrigado a pautá-la com transparência e retidão. No caso do Presidente da República não. É o que se verifica no caso do vazamento de informações sobre seus gastos pessoais.



Alguém poderá dizer (e até o Governo diz) que no tempo do FHC e outros, também era assim. E isso é verdade. Só que a gente (quando elegeu o companheiro Lula) esperava que no seu governo isso seria diferente.



É necessário dizer, entretanto, que isso acontece, não por causa da origem humilde do metalúrgico. Burgueses que chegaram ao poder também fizeram o mesmo. Isso acontece porque há um vicio empedernido na estrutura do sistema presidencialista do regime chamado democrático que diz que ninguém pode ser diferente. Assessores rezam para ser irmãos siameses daquele que está no topo da cadeia alimentar do governo. Em todos os entes da federação. E para isso, proporcionam ao chefe um ambiente de benesses, onde eles, os subalternos, vivem à sua sombra, igualmente usufruindo a sinecura.



A recente CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) que investiga o uso indevido dos cartões corporativos do Governo federal, descobriu que o nosso Presidente e sua comitiva gastou mais de 8 mil dólares (algo em torno de 14 mil reais) com alimentação e bebidas a bordo do avião presidencial numa viagem no final do ano passado que a trupe fez a Nova York a serviço do País.



Diz a Imprensa que a revelação feita por um deputado do DEM irritou parlamentares da base aliada do Governo. Reclamaram do vazamento de informações que foram consideradas sigilosas pelo Palácio do Planalto.



Veja só. Primar pela transparência dos gastos públicos, agora virou segredo de Estado. O Planalto defende-se dizendo que reservou 50 mil dólares para as despesas com essa viagem e que devolveu 15 mil. Deu a entender que houve “economia”. Porém, o que transparece é o temor oficial do que o povo possa dizer desses gastos.



O deputado líder da bancada governista na Câmara Federal chegou a dizer em plenário: “Será que a régua para medir o bom uso do dinheiro público é medir a comidinha servida no avião? Um gasto coberto por sigilo não quer dizer que ele não seja fiscalizado. Para isso, tem o TCU, a CGU e o Ministério Público Federal. Temos de discutir temas importantes para o país. Não podemos ir de tapioca em tapioca, de comidinha em comidinha”, reclamou. Assim também pensavam os militares ao ocultar do povo, pequenas e grandes coisas.



Os dólares gastos com comida e bebida por funcionários públicos a bordo de um avião podem não ser um tema importante para políticos empertigados que viajam de graça toda a semana da capital para sua bases. Para o cidadão comum, entretanto, com uma soma dessas, ele poderia viver um bom par de anos, demonstrando isso, com transparência e orgulho, no seu holerite e declaração de isento, para a alegria de sua modesta família.

(*) Foi candidato a governador do estado de Mato Grosso do Sul, pelo PSOL, em 2006. Contato: dutracarlito@uol.com.br

Fonte: Vereador Carlito Dutra (*)
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